A máquina do tempo 2

Terminava o menino de ler a sua composição quando irromperam pela praça uma mão cheia de serviçais carregando enormes bandejas de febras grelhadas. Com a fome a apertar foi inevitável o aplauso geral. Em cima do palco o pequeno lacrimejava perdido de emoção… nunca tanta gente sem o seu apelido lhe tinha batido palmas, nem mesmo no vigésimo aniversário, após soprar as velas, quando juntou largas centenas de “amigos” para uma festarola.
 
Nas mesas já ninguém tirava os olhos das travessas da febras e do Café Central muitos vieram à socapa tentar apanhar um papo-seco e bocado de carne… ia bem com as minis geladinhas do Barba.
 
Estavam todos nisto quando surge, vindo da Rua do Castelo, a alta velocidade um Mercedes Classe S preto… entra no Largo da Igreja e, obrigado a travar de repente, quase atropelava Chiquinho do Porto da Figueira que se esgueirava com uma improvisada bifana na mão. O condutor, nitidamente atrapalhado, estaciona ali à babuja, tentando passar desapercebido. Afinal o automóvel transportava alta individualidade… nada mais, nada menos do que Lisete Romão, acompanhada pelo seu tapete particular José Vítor, da vizinha freguesia de Messines.
 
Ao reconhecer os tripulantes da viatura José Folgado, refastelado na mesa presidencial, salta da cadeira e, sob o olhar impávido dos presentes, começa a ficar vermelho… vermelho… vermelho… até que José Rodrigues grita:
- O homem engasgou-se! Vai sufocar!
 
Como um relâmpago, vindo não se sabe de onde, Arthur Ligne assenta a sua enorme mão nas costas de José Folgado que “cospe” um enorme bocado de febra. Visivelmente aliviado Folgado não perde tempo e grita:
- Tenho estado aqui a observar esta vergonha… Quer a senhora que o meu povo acredite que vai fazer no Montinho um edifício mais imponente que o Buch Dubái?!!
 
Isabel Soares levanta-se, pega delicadamente no micro que Arthur Ligne prontamente tinha ido buscar, e responde:
- Eu disse mais alto!!! Não ponha palavras na minha boca! Não vai ser tão largo… mas vai ser mais alto.
 
José Folgado riposta:
- Estão a ver, se não fosse este vosso fiel presidente hoje iriam para casa convencidos de que o novo edifício era mais largo que o outro. É por estas e por outras que não é bom ter o presidente da Junta da mesma cor do Presidente da Câmara.
 
Apercebendo-se da alarvidade que tinha dito José Folgado tentou reparar a frase:
- O ideal é ter o Presidente da Câmara da mesma cor que já se tinha o presidente da Junta. É como as casas… começam a construir-se pela base.
 
Luís Cabrita e José Rodrigues rebolavam a rir com a cena enquanto Rui Grilo, alheio a tudo e a todos, contemplava Isabel Soares a mastigar uma perna de frango… estava decidido… por aquela mulher ele era capaz de ir até ao fim do mundo.
 
No palco, improvisado junto ao muro do miradouro, ultimavam-se os preparativos para o momento musical, era preciso colocar ruído na cena antes que a coisa descambasse. O convidado era Badaró que, sendo proprietário de um T1 em Armação de Pêra, aceitou participar na festa a troco da isenção de IMI por 4 anos. Nenhum outro artista, do catálogo com mais de 200 entregue à senhora, aceitou animar as acções de campanha sem receber primeiro e também nenhum outro tinha imóveis no concelho de Silves…
 
A música irrompeu na noite no preciso momento em que Carneiro Jacinto entra no recinto, aparentando passear o seu premiado Grand Danois malhado. Fazendo ar de surpreendido pelo que ali se passava… parou à entrada do Largo, mesmo ao lado do Classe S preto. Os olhos percorriam o candidato de alto a baixo e poucos devem ter reparado na enorme mijadela que o “cãozito” fez no pneu do Mercedes.
 
Deduzo que Carneiro Jacinto não será grande apreciador de Badaró porque deu costas e entrou no Café Central onde pediu uma mini, um prato de tremoços e um balde com água… para o “bichinho”. Badaró exerce sobre as multidões um efeito anestesiante, durante a hora e meia do show ninguém se mexeu. Desconfio que nem o aparelho digestivo de cada um ousou começar a digestão enquanto o homem cantava.
 
Mal termina a actuação sobe ao palco Rui Grilo e diz:
- E agora, para terminar a festa e homenagear a Dra. Isabel Soares, trago aqui uns foguetes que encontrei lá em casa dos meus avós e vou lançá-los…
 
Num instante os céus de São Marcos encheram-se de fogo e barulho de festa e não tardou muito para que, do lado de lá da ribeira, um incêndio se começasse a avistar do miradouro. Lançar foguetes em Setembro tem quase sempre este efeito… Apressado José Folgado ligou para os Bombeiros de Messines e tirou da garagem a carrinha equipada com mangueira que José Sócrates lhe ofereceu.
 
As coisas tomavam proporções mais sérias. Vários outros focos de incêndio surgiam e no Largo da Igreja Isabel Soares gritava:
- Uma cabeleireira, arranjem-me uma cabeleireira!!!
 
A viscosa autarca sabia que a TVI deveria estar a chegar e ela tinha que estar pronta para a ladainha do costume. - Que sorte o Ruizito ser tão descuidado. - pensou.
 
Com a aldeia quase cercada pelas chamas a TVI chegou ao local e a repórter, já “instruída” sobre o que se tinha passado inicia a reportagem:
- Estamos aqui em São Marcos da Serra onde um incêndio de enormes dimensões, alegadamente ateado por membros da oposição à presidente da Câmara de Silves, ameaça a aldeia. Senhora presidente, acha que isto é um ataque pessoal contra si?!
 
Chorando baba e ranho Isabel Soares responde:
- Infelizmente penso que sim. Penso que se trata de um ataque da oposição. Ameaçam-me a mim e aos meus queridos peixes burros, mas eu não os abandonarei. Ficarei aqui até as árvores voltarem a crescer.
 
- O que são os peixes burros?! – pergunta a jornalista.
 
- Ora, é o nome que se dá aos habitantes desta freguesia. Devia aprender isso na escola! – Ripostou a autarca.
 
Chegou ao fim do directo e Isabel Soares, acenando gentilmente enfia-se no carro, já com o motor ligado, e diz:
- Lembrei-me agora que deixei bacalhau de molho, ao preço que está o melhor é ir ver se ainda o aproveito.
 
Saiu a toda a velocidade deixando toda a gente estupefacta.
 
Termina aqui esta acção de campanha que acompanhamos graças à máquina do tempo. Outras virão.
publicado por João da Serra às 04:17 | favorito